terça-feira, 26 de abril de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Música de Domenico Scarlatti

 Giuseppe Domenico Scarlatti (Nápoles, 26/10/1685) - Madrid, 23/07/1757).

A música desempenha um papel muito importante em Memorial do Convento, através de Scarlatti, o professor particular da infanta D. Maria Bárbara. Amigo  de Bartolomeu Lourenço de Gusmão leva para a Quinta de S. Sebastião da Pedreira, local da construção da passarola, o seu cravo. Os seus acordes impregnam o ambiente e tornam-se também eles "criadores". É precisamente esta música divinal que vai resgastar Blimunda e trazê-la novamente para a vida!

Ouçamos a música de Domenico Scarlatti, através do pianista Vladimir Horowitz e do guitarrista John  Williams:
http://www.youtube.com/watch?v=KH-PMQh0dCU

http://www.youtube.com/watch?v=AjI6D6g4bNI&feature=related

D. João V e o Memorial do Convento

Para compreendermos esta narrativa, importa conhecer a época que serve de pano de fundo à sua construção. Vamos, então, mergulhar no século XVIII, no reinado de D. João V, uma das personagens fulcrais da obra.


Época de D. João V

O longo reinado de D. João V (1689-1750), que se estendeu por 43 anos, vai pautar-se pela tentativa de aplicação das teorias absolutistas, à semelhança do que se sucedia na corte francesa. A sua época seria assim marcada, em termos políticos e económicos, pelas doutrinas de centralização régia, que lutavam contra as incoerências da sociedade portuguesa. É igualmente eternizada através do esplendor da corte e da sua vida social e intelectual, conhecida pelos rituais faustosos, pela pompa dos autos de fé, pelas touradas, enfim, pela magnificência da sua arquitetura, de interiores profusamente decorados em talha dourada, mármores e azulejos, cujo expoente máximo é o convento de Mafra. Aqui se unem as realidades do barroco: o poder, a cultura e a religião. É, assim o espaço do rei e da corte, santificado pela presença da Igreja e unido pela sabedoria, cujo centro era a sua grande biblioteca.
Este período é inseparável da afluência das riquezas minerais do Brasil. Ouro e diamantes irão ter o mesmo papel que as especiarias de Quinhentos na vida portuguesa: assiste-se ao declínio das indústrias, com exceção para as que produziam bens sumptuários que forneciam os cortesãos ou a burguesia mercantil; ao escoamento das riquezas para outras nações; ao aumento do número de emigrantes em direção às colónias na procura de uma nova vida; aos sinais de debilidade da burguesia, cada vez menos empreendedora em termos de comércio interno, fascinada pelos cargos públicos do funcionalismo, pelas profissões liberais, pelo trato internacional e colonial e pouco voltada para o desenvolvimento do país, enquanto a classe nobre se lisonjeava com a sua posição dentro da sociedade, enchendo os conventos de mulheres sem casamentos proporcionados, o que se refletiu na devassidão da disciplina conventual.
Esta é também uma época de contradições a nível cultural, marcada pela manutenção da velha hierarquia social, em que predomina o espírito da nobreza e do clero mas que, ao mesmo tempo, pretende integrar-se no ambiente europeu, repleto de novidades técnicas. Tal facto abre as portas aos letrados portugueses formados no estrangeiro, bem como a eruditos de outros países, que ficaram conhecidos como estrangeirados. Este grupo luta pelo aburguesamento do reino, sinónimo de modernização, tendo pela frente a tradicional ordem social. Os seus projetos de modernização eram essencialmente de ordem técnica, económica e pedagógica, trazendo inovações na área da cartografia, da medicina, da engenharia, etc., como atesta a nova demarcação fronteiriça feita por Manuel de Azevedo Fortes, cuja obra o Engenheiro Português (1728/29), formou grande parte dos técnicos do seu tempo. Homens como o conde de Ericeira, D. Luís da Cunha, Alexandre de Gusmão, Ribeiro Sanches, entre muitos outros, trazem consigo um espírito antibarroco e antiescolástico, iniciando a rutura com o sistema dominado pelos jesuítas. Ficam assim lançadas as bases teóricas do programa reformista do Marquês de Pombal, que será motivado pelo enfraquecimento das remessas auríferas brasileiras.
É neste contexto de abertura aos letrados e artistas estrangeiros que chegam a Portugal homens como Domenico Scarlatti, Ludovice, Pillement ou Nasoni, e são possíveis obras de grande envergadura como as do Convento de Mafra, a igreja e a torre dos Clérigos, no Porto, o aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, entre outras realizações da época. Esta mesma ligação à cultura europeia levou à criação da Academia Portuguesa das Artes em Roma, por onde passavam os bolseiros do rei e de outros mecenas.
Paralelamente verifica-se uma reforma do ensino, que devia acompanhar o desenvolvimento técnico. Privilegia-se o ensino da língua materna, em detrimento das aulas clássicas, e os valores experimentais e matemáticos, procurando seguir o espírito das Luzes. Nesse sentido é publicado o Vocabulário Português, de Rafael Bluteau, precursor dos dicionários de português, e impulsionada a manutenção das bibliotecas. D. João V criou a biblioteca de Mafra, valorizou a biblioteca do Paço e reformou a da Universidade de Coimbra, cujo edifício é um magnífico exemplar da arquitetura joanina.
A preparação dos jovens aristocratas passa a ser feita tendo em consideração as necessidades da carreira militar e diplomática (Colégio dos Nobres). Também não foi esquecida a divulgação dos novos processos de produção fabril e de exploração agrícola. Estas reformas, que se insurgiram contra a escolástica dominante no ensino, culminaram com a publicação da obra de Luís António Verney, em 1746, Verdadeiro Método de Estudar para ser útil à República e à Igreja.
Em termos teatrais, verifica-se a decadência do teatro de capa e espada espanhol e a divulgação da ópera italiana. Contudo, o declínio do primeiro e os custos avultados do segundo levaram ao surgimento de outro tipo de espetáculo: o teatro de bonecos articulados ou bonifrates, uma imitação burlesca da ópera. O seu grande impulsionador literário foi António José da Silva, o Judeu, cuja breve carreira foi brualmente interrompida pela Inquisição.
Literariamente, é uma época de típica escrita barroca, pautada pelo exacerbamento da linguagem e a "mania" das grandezas, de que faz eco o cancioneiro Fénix Renascida, publicado por D. Francisco Manuel. De forma genérica, a produção literária deste período esconde por detrás das suas fachadas barrocas artificiais e pomposas a decadência da nobreza, o "beatismo" da sociedade de algumas liberalidades entre os religiosos, como atesta a produção literária (mais epistolar) dos conventos femininos. A falta de vocação para a vida eclesiástica levava muitas religiosas a criarem uma ligação com a vida sentimental através da escrita, sendo algumas obras textos líricos dotados de um certo "erotismo" místico. O seu mais alto símbolo são as Lettres Portugaises, que se referem à paixão de Sóror Mariana Alcoforado por um oficial do exército de Shoenberg.
A nível intelectual, o reinado de D. João V viu ainda nascer a Academia Real da História (1720), apologista da historiografia erudita e documentada, iniciando-se uma nova linha que se demarca das deformações apologéticas dos séculos anteriores (crónicas). Daqui saíram obras como a Biblioteca Lusitana, de Diogo Barbosa Machado, e a História Genealógica da Casa Real Portuguesa, em três volumes, da autoria de António Caetano Sousa, que na sua sequência publica as Provas e um Índice Geral.
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Época de D. João V. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-04-18].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$epoca-de-d.-joao-v>.


AS GRANDES OBRAS DO REINADO DE D: JOÃO V

O Aqueduto das Águas Livres - Lisboa
 A Biblioteca Joanina - Universidade de Coimbra



Palácio Nacional de Queluz

Consulte também os seguintes sites para ter uma visão mais completa:



Para ouvir Carlos Seixas, um dos músicos portugueses mais famosos desta época:

José Saramago e Memorial do Convento



«Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez...» 



"Só se nos detivermos a pensar nas pequenas coisas, chegaremos a compreender as grandes".
José Saramago 

Antes de iniciar o estudo desta narrativa, convido-to a aprofundar os conhecimentos sobre o seu autor, José Saramago:







domingo, 27 de março de 2011

DIA MUNDIAL DO TEATRO

 TEATRO:
Etimologia gr. théatron,ou 'lugar onde se assiste a um espetáculo, espectadores, o próprio espetáculo' (< gr. théa 'espetáculo, vista, visão' + o suf. -tron 'instrumento', donde, lit., 'máquina de espetáculo'), pelo lat. theátrum,i 'teatro, lugar para jogos públicos, reunião de espectadores ou ouvintes, ajuntamentos, assembléia, auditório'; ver teatr(o)-; f.hist. sXV theatros, 1836 teatro.
Dicionário elect. Houaiss

Hoje, dia Mundial do Teatro, não podemos  deixar de relembrar, Pessoa enquanto “poeta dramático escrevendo em poesia lírica” (cf. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação). 
Apresentamos aqui um excerto de O Marinheiro, drama publicado no número 1 de Orpheu (1915).  
Segundo os estudiosos, esta obra constitui um marco indelével na evolução literária do seu autor. Para Teresa Rita Lopes, existem laços indissociáveis entre O Marinheiro e a vida do próprio Pessoa. Náufrago da sua infância, afastado dos amigos, do seu espaço natal, desde muito cedo “pôs-se a sonhar” não apenas uma outra pátria, “uma nova terra natal” mas também “os companheiros da infância e depois os amigos e os inimigos da sua idade viril”.  Segundo Bréchon e Seabra Pereira, O Marinheiro anuncia o aparecimento nele de “vozes” novas,  podendo ser lido como uma alegoria da criação literária e, ainda, como um primeiro ensaio da aventura heteronímica.
O MARINHEIRO
DRAMA ESTÁTICO EM UM QUADRO
                        A Carlos Franco
Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.
Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.
É noite e há como que um resto vago de luar.
PRIMEIRA VELADORA — Ainda não deu hora nenhuma.
SEGUNDA — Não se pode ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia.
TERCEIRA — Não: o horizonte é negro.
PRIMEIRA — Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso. ..
SEGUNDA — Não, não falemos nisso. De resto, fomos nós alguma cousa?
PRIMEIRA — Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar do passado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer cousa?...
(uma pausa)
A MESMA — Falar do passado — isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena...
SEGUNDA — Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido.
TERCEIRA — Não. Talvez o tivéssemos tido…
PRIMEIRA — Não dizeis senão palavras. E tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos! ... Se passeássemos?...
TERCEIRA — Onde?
PRIMEIRA — Aqui, de um lado para o outro. As vezes isso vai buscar sonhos.
TERCEIRA — De quê?
PRIMEIRA — Não sei . Porque o havia eu de saber?
(...) 
1913
Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Notas explicativas e notas de Eduardo Freitas da Costa). Lisboa: Ática, 1952 
1ª publ. in Orpheu , nº1. Lisboa: Jan-Mar. 1915.
In http://arquivopessoa.net/textos/1973.

segunda-feira, 21 de março de 2011

DIA MUNDIAL DA POESIA


Sempre se admitiu que a poesia participava do divino porque eleva e arma o espírito submetendo a aparência das coisas aos desejos da alma, enquanto a razão constrange e submete o espírito à natureza das coisas. 
 Francis Bacon, O Progresso do Conhecimento

 
   
A poesia é tudo o que há de íntimo em tudo.
Victor    Hugo
Prospecção

Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado
Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.
Miguel Torga
 http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/torga.html 

Para ver e ouvir:
http://wn.com/Chopin,_le_po%C3%A8te_du_piano

domingo, 20 de março de 2011

Mensagem

O meu livro "Mensagem" chamava-se primitivamente "Portugal". Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar — a observação era por igual patriótica e publicitária — que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. «Quer V. pôr o título do seu livro em analogia com "portugalize os seus pés?"» Concordei e cedi, como concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.
Pus-lhe instintivamente esse título abstracto. Substituí-o por um título concreto por uma razão...
E o curioso é que o título "Mensagem" está mais certo — àparte a razão que me levou a pô-lo — de que o título primitivo.
Deus fala todas as línguas, e sabe bem que o melhor modo de fazer-se entender de um selvagem é um manipanso e não a metafísica de Platão, base intelectual do cristianismo. Reservo-me porém o direito de pensar que tal forma da religião é uma forma inferior. É sem dúvida necessário que haja quem descasque batatas, mas, reconhecendo a necessidade e a utilidade do acto descascador, dispenso-me de o considerar comparável ao de escrever a "Ilíada". Não me dispenso porém de me abster de dizer ao descascador que abandone a sua tarefa em proveito da de escrever hexâmetros gregos.

s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. 
In http://arquivopessoa.net/